Concebendo comunidades para vidas femininas

Por Cláudia Maria Ceneviva Nigro (UNESP)

Ao narrarmos necessitamos daqueles que nos ouçam e compartilhem ou discutam o contado. A narração de mulheres tem o poder de atingir a todos, todas e todes, porque desempenham papéis múltiplos e nomeiam-se conforme a circunstância: pesquisadoras, trabalhadoras, formadoras, observadoras, amantes, algumas mães, todas filhas. Nossos corpos formam-se presentes e adaptáveis e, por isso, fundamentais para o exercício da cidadania na sociedade. 

Eu, Cláudia, por exemplo, sou pesquisadora na área de literatura, gênero e raça. Reconheço o privilégio da branquitude, a ausência de justiça social no tratamento de mulheres e sou professora responsável por facilitar a leitura de uma literatura que ensina – a partir de projetos poéticos, ensaístas e políticos – o quanto ainda desconhecemos sobre a nossa comunidade de mulheres. A pluralidade de maneiras como os corpos femininos existem, inexistem e resistem, apresenta-se nos textos que remetem diretamente à vida. 

Ler obras de escritoras/es nos dá o privilégio de ver o mundo em suas sutilezas, vislumbrando práticas que podem oportunizar desenvolvimento de conhecimento, respeito e empatia. Os estudos críticos acerca das obras, de gênero e de raça decoloniais e subalternos, sublinham reflexões sobre comunidade, condizentes com aquelas elaboradas por Airton Krenak e por Judith Butler, a fim de apoiar a reivindicação dos múltiplos corpos de mulheres. 

Ao desconstruir o tratamento conferido a elas por anos na sociedade hegemônica heterocentrada, branca e racista, encontramos respaldo para pensar a geopolítica do conhecimento e a necropolítica dos corpos negros nas Américas. Somos daqui. Eu, particularmente, vim de mãe e pai brasileiros e gosto de colaborar narrando um pouco das experiências de mulheres deste lado do mundo. Trabalho na UNESP há 22 anos e, da perspectiva do sul global e de seus desafios, discuto as oportunidades e as pautas dos corpos femininos cis e trans, brancos, pretos, indígenas, em diferentes contextos.  Sustentada na concepção de espaço de Milton Santos, repenso políticas adotadas para esses corpos em comunidades constantemente “colonizadas” pelo ocidentalismo. Gosto da ideia de Mary Pratt sobre a neocolônia e do tráfico de significados; de Katherine Walsh, quando aventa sobre práticas e políticas de re-significação e decolonialização; de Aquiles Mbembe, ao explicitar a necropolítica e de Jarrid Arraes e b. Hooks sobre o feminismo negro nas Américas, entre outras pesquisadoras/es e escritoras/es.

A mulher que sou faz parte dessa comunidade, diariamente assaltada por um contexto de intolerância, preconceitos, desinformação, racismo, sexismo, classismo e herança hegemônica de mal tratos às mulheres. No entanto, resiste e reivindica a mudança de paradigmas para a inclusão do mesmo valor a todas, todos e todes e já capaz de usufruir das benesses conquistadas por essa comunidade acolhedora.

A que habito é muito participativa. Fazemos atividades de pesquisa, docência e extensão, levando nossas reflexões para nossa região, para o país e para o exterior, por meio de parcerias de trabalho à comunidade ao nosso redor, ou seja, reverberamos atitudes a fim de alargar espaços para as mulheres. Nosso trabalho vai longe. Nossas atividades foram até incluídas em uma publicação internacional que reuniu práticas e experiências de todo o mundo relacionadas com o Objetivo do Desenvolvimento Sustentável número 5, agenda 2030 da ONU, que aborda a igualdade de gênero. 

A importância das diferentes formas de rede de solidariedade e de interseccionalidade para a valorização da mulher firma-se na abertura para a união e o estabelecimento de ajuda mútua com outras “minorias” (LGBTQIA+, mulheres e homens de etnias diversas, entre outros). Adaptando Audre Lorde para nossa realidade, toda vez que defendemos alguém sem pretensão, defendemos a todas e esse é o propósito da nossa comunidade: criar possibilidades. E, como diz a professora de literatura Judith Butler “A possibilidade não é um luxo. Ela é tão crucial quanto o pão”.

A autora

É professora Associada do Departamento de Letras Modernas da UNESP/São José do Rio Preto nos cursos de graduação e pós-graduação. Livre-docente em Crítica Literária. Líder do Grupo de Pesquisa Gênero e Raça.