Por um resgate da memória das mulheres

Por Flaviana de Freitas Oliveira

Estamos em março, mês em que se “celebra” o Dia Internacional da Mulher. E, neste momento, apesar das dificuldades e retrocessos que temos enfrentado em relação aos direitos, não podemos desanimar. Falar sobre os direitos das mulheres em uma perspectiva transversal, considerando as diferentes vertentes que permeiam a construção do ser social “mulher”, como raça, orientação sexual, classe social, idade, entre outras, é fundamental para construirmos um feminismo pautado na diversidade.
Em minha trajetória, o conhecimento sobre os Direitos Humanos foi o grande divisor de águas na minha vida pessoal e profissional. Por isso, sou árdua defensora da importância da Educação em Direitos Humanos: acredito que, por meio dela, podemos formar pessoas para que vivenciem e apliquem os Direitos Humanos. Mais, podemos formar sujeitos para que transponham o lugar de vítima e possam reivindicar seus próprios direitos.
Sou formada em Jornalismo e em Direito e começar a estudar Direitos Humanos me trouxe muito empoderamento enquanto mulher. Em meu mestrado em Ensino e Processos Formativos, na Unesp de São José do Rio Preto, pesquisei o que os telejornais falam sobre os Direitos Humanos. Saltou aos olhos as notícias sobre feminicídios, que estiveram entre as três categorias mais faladas nos noticiários televisivos.
Desde então, tenho buscado uma trajetória pautada no feminismo e na luta pelos direitos das mulheres. Atualmente, no doutorado em Educação, na Unesp de Marília, pesquiso a violência sofrida por mulheres vítimas da ditadura civil-militar brasileira. Os depoimentos dados à Comissão Nacional da Verdade revelam que as torturas praticadas pelo aparelho repressor tinham um forte caráter de violência de gênero.
Conhecer a nossa história e pensar criticamente sobre o passado é uma importante forma de entendermos o presente e construirmos um futuro sem repetir os erros cometidos anteriormente. A partir dos relatos e documentos sobre as violências sofridas por mulheres na ditadura podemos pensar em possibilidades educativas para diminuir a violência contra as mulheres e construir um futuro baseado na igualdade de gênero.
Embora, nos dias de hoje, diversos tratados internacionais garantam a igualdade entre homens e mulheres, com preservação dos direitos das mulheres, a construção social e cultural em torno da condição biológica das mulheres fez com que estas experimentassem uma forma particular de violação dos seus Direitos Humanos. Foram, e continuam sendo, vítimas de muitas formas de violência: dentro de suas casas, nos ambientes de trabalho e em espaços públicos.
Em um país em que uma mulher é morta a cada duas horas, conforme o Monitor da Violência sobre assassinatos de mulheres, resgatar a memória e a verdade sobre as vivências históricas das mulheres é um desafio e tanto.
Somos mulheres, em todas nossas diferenças e pluralidades. Já conquistamos tanto, mas ainda temos muito pelo que lutar. Se hoje sou uma pesquisadora e doutoranda, tenho que honrar minha ancestralidade e o feminismo, que permitiram a mim, e a tantas outras, que pudéssemos ocupar esses espaços. Cabe a nós continuar esta luta para que possamos, a longo prazo, acabar com a violência de gênero e atingir a tão sonhada igualdade entre homens e mulheres.

A autora

Flaviana de Freitas Oliveira é doutoranda em Educação pela UNESP de Marília e mestra em Ensino e Processos Formativos pela UNESP de São José do Rio Preto. Foi professora substituta do Departamento de Educação da UNESP de São José do Rio Preto. É advogada atuante e coordenadora suplente do Núcleo de Memória da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP.