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Mundo dos games também é feminino

    No ano de 1978, Los Angeles foi palco de um combate regional do jogo Space Invaders que, sendo um dos pioneiros jogos de tiro, virou um clássico. Rebecca Heineman saiu em disparada dos outros competidores, fazendo 88 mil pontos – o dobro do segundo lugar. A pontuação foi tão alta que, para não desmotivar os outros participantes, os organizadores do torneio a mantiveram em segredo até o final. Quando revelada seu placar, ela ainda perguntou, distraída: “é uma pontuação boa?”. Com essa vitória, Rebecca se tornou a primeira pessoa a ganhar um campeonato de eSports nos Estados Unidos.

    O fato desse grande título ser dado a uma mulher trans significa muito, marcando o valor da presença feminina nos jogos. Apesar de na época ainda não ter transicionado, Rebecca Heineman marcou uma geração de mulheres gamers que viriam depois dela. Participando na criação de mais de 200 jogos, seu nome é de suma importância para os games.

    Quatro décadas depois desse feito, o mundo dos eSports evoluiu muito em diversas questões, como design gráfico de jogos e a chegada dos jogos online. Em outros aspectos, porém, ainda existe uma decadência que precisa ser superada: o machismo.

    A existência feminina dentro dos jogos permanece sofrida. “As dificuldades vão desde combater narrativas que tenham mulheres como personagens, protagonistas estereotipados, até a busca pela construção de um ambiente seguro, longe de assédios, xingamentos e discriminações”, explica Gabriela Gonçalves, coordenadora de formação audiovisual do projeto “Empoderamento e Tecnologia: Jovens Negras no Audiovisual”.

    O programa, segundo Gabriela, busca “promover o acesso democrático à produção, formação e empreendedorismo audiovisual; voltado para um público de mulheres negras entre 18 a 29 anos; contemplando também mulheres trans, indígenas e refugiadas”. Essas e outras iniciativas são criadas para um maior acolhimento do público feminino no universo do eSport.

    Outro projeto que trabalha em prol das mulheres é o Garotas Mágicas, organizado por influencers como Karen Bachini e Riyuuka. Alice, conhecida pelo seu nickname Lys, é uma das figuras públicas que participa do GM. Ela acredita que a existência dessas iniciativas para o público feminino é muito benéfica. “Eu queria obviamente que existissem mais outros projetos […], mas isso é muito raro, né? Porque querendo ou não tem muita menina que começa nos jogos e acaba sofrendo alguma coisa, algum preconceito, alguma violência mesmo, e acaba se afastando”, desabafa a streamer.

    Alice foi introduzida ao mundo dos jogos desde cedo. A influencer conta que praticar eSports era uma iniciativa incentivada pelos seus familiares, para que ela aprendesse inglês. Ela jogava ao lado do pai, que ia traduzindo os jogos enquanto ela segurava o controle. Porém, a importância desse universo na vida de Alice foi muito além de compreender uma nova língua.

    A gamer conta que nos jogos ela conseguia achar uma representação feminina que lhe favorecesse. Mulher trans, quando pequena Alice ainda não havia transicionado, e poder usar skins femininas era um escape da sua realidade. “Eu via meio como que uma válvula de escape para mim, né? Eu me via nessas personagens, eu poderia ser essas personagens jogando”, relembra.

    Entrando no mundo dos games antes de iniciar a transição, Alice conseguiu sentir na pele a diferença de tratamento depois que começou a se apresentar como mulher. Desde o início, ela já sofria uma pressão por gostar de jogar com skins femininas. “Depois que eu transicionei o negócio ficou um pouco mais pesado”, conta a gamer.

    Ela ainda relembra situações em que precisou esconder seu gênero para ser levada a sério em alguma partida. “Isso [esconder o gênero] acontece. Quando eu tava começando a streamar, eu jogava muito Valorant. E eu tinha medo de abrir o microfone”, recorda.

    Até hoje, Alice conta que fica tensa de jogar sozinha. Por um tempo, ficou afastada de jogos de FPS [tiro em primeira pessoa], por conta de como era recebida pelos outros jogadores. A influencer acredita que atualmente ainda exista um grande gatekeeping por parte dos homens, que tentam monopolizar o direito de ser jogador de eSports.

    Tal preconceito fica claro na forma diferente que ela é tratada uma vez que seu gênero vem ao conhecimento de outros gamers. ‘‘Teve uma vez que eu tava numa call, eu tava quieta, ninguém sabia que eu era menina. De repente, os caras estavam falando de uma maneira, e aí eu falei um “a” e todo mundo mudou, sabe? Ficou tipo um elefante rosa na sala”, conta Alice, relembrando uma das diversas situações vivenciadas.

    Dentro dos games, a situação está melhorando um pouco. Se antes a maioria dos jogos retratava o corpo feminino de forma sexualizada, hoje em dia essa representação melhorou. Valentina Camargo é uma grande fã de League of Legends. Na TV Gazeta, assumiu a editoria de esportes eletrônicos. Ela acredita que existam skins que retratam de forma positiva o corpo feminino.

    “Não vou falar de uma personagem específica, mas vou usar como exemplo, os personagens de Valorant. Eu adoro jogar o game, e é nítido que a proporção de personagens dos sexos feminino e masculino, é bem equilibrada. As personagens femininas, tem uma construção visual, condizente com a função, origem e personalidade delas. Então não tem aquela questão de a personagem ser uma engenheira, porém, que luta seminua, com os seios balançando, só para agradar o olhar masculino”, explica a jovem.

    Ela ainda explica que existe uma grande variação de skins com diversas representatividades no jogo. Mesmo quando alguma personagem feminina usa uma roupa mais colada ou curta, não implica uma conotação sexual forçada, como já aconteceu muito em outros jogos.

    Esse passado de sexualizar skins femininas fica claro em uma das primeiras personagens mulher da história dos games, Samus Aran. A heroína do jogo Metroid parte em sua missão vestindo uma armadura completa que impede o jogador de saber, inicialmente, o gênero da personagem.

    Com o decorrer do game, sua revelação é feita de forma inusitada: quanto melhor o rendimento do jogador, mais partes da armadura são retiradas. Então, se a finalização do jogo vier com uma ótima pontuação, Samus aparecia apenas vestindo lingerie. Um “prêmio” machista para compensar o bom afinco do gamer. Atualmente, tal recompensa não seria tão valorizada.

    A construção de um ambiente mais seguro e humanizado para as mulheres no mundo dos games, seja pela evolução dos jogos ou pela segurança de poder usar seu gênero em uma partida sem medo, é importante para que esse grupo se sinta à vontade para jogar. Grupo este que, segundo Pesquisa Gamer Brasil (PGB), representa a maior parcela de gamers no país. Dos entrevistados em uma pesquisa de 2021, 51,5% das pessoas que dizem ter o costume de jogar são mulheres, e apenas 48,5% são homens. Mesmo sendo maioria, apenas 57,5% das mulheres se identificam como “gamers”, em contraste com os 65,8% dos homens que se enxergam da mesma maneira.

    Ainda é preciso muita evolução para que estas meninas e mulheres se sintam confortáveis no universo dos eSports. Apesar disso, as gamers não deixam sua paixão de lado. “O setor gamer é muito movimentado, com informações, acontecimentos, lançamentos o tempo todo. Isso me deixa muito empolgada para jogar coisas novas, ou conhecer algum campeonato diferente. […] Toda essa interação e retorno do público, faz tudo valer a pena. Ali eu sinto que eu estou com eles, e eles também estão comigo” explica Valentina sobre a relevância do mundo dos games na sua vida.

    Já para Alice, a comunidade é importante por ter lhe acompanhado desde a infância. “Obviamente toda essa comunidade tem coisas boas e tem coisas ruins, como já foi citada aqui. Mas, em geral, me faz muito bem, tanto que é a carreira que escolhi e ‘tá’ dando certo, né?”, explica a gamer, que já possui mais de 13 mil seguidores no Instagram.

    Ela ainda complementa que a vivência vale a pena pelas pessoas gentis que ela conhece no caminho. “É muito bom, sabe? Quando você ‘tá’ criando uma comunidade boa, tem um pessoal que se respeita… É uma coisa assim que me deixa de coração quentinho”, finaliza Lys.

    Créditos

    Texto elaborado por Mariana Fabiano, colaboradora do Educando para a Diversidade.

    Capa por Gabriela Simões, colaboradora do Educando para a Diversidade.