Pular para o conteúdo

Estrelas além do tempo

Monica Abrantes Galindo (UNESP, CDINN, NUPE)

Trago à lembrança um filme de 2016 intitulado originalmente “Hidden Figures” e que no Brasil chegou como “Estrelas além do Tempo”.  O filme, – baseado no livro de mesmo nome de Margot Lee Shetterly -, conta a história de grupos de mulheres matemáticas que trabalhavam na agência espacial que posteriormente se transformaria na NASA – National Aeronautics and Space Administration. Essas mulheres, com profunda habilidade e conhecimentos matemáticos e de engenharia, faziam os cálculos dos projetos espaciais utilizando calculadoras, “lápis e papel”, antes da chegada dos grandes computadores. A história centra-se em três mulheres negras que faziam parte de um grupo segregado dentro da agencia, visto que os Estados Unidos estavam em pleno período de segregação racial. E de início pergunto, ainda que conheçamos tantos aspectos das histórias norte-americanas de “sucesso”, quantos de nós, antes do filme, haviam ouvido falar que na agência espacial trabalhavam mulheres matemáticas, fazendo cálculos e ainda que haviam mulheres negras que participavam desses grupos? A resposta é que certamente pouquíssimas pessoas sabiam dessas existências. E a primeira ideia que o filme nos permite refletir é a invisibilidade imposta às mulheres e em especial às mulheres negras. 

Outra ideia que o filme permite que pensemos é a racialização. A ideia de racialização está baseada no argumento de que a chamada “raça” é uma construção social e uma categoria não universal ou não essencial da biologia, formada na e pela simbolização em um processo de luta pelo poder social e político, que busca pela significação de características biológicas humanas, definir e construir coletividades sociais diferenciadas. As mulheres negras do filme – essenciais  para o desenvolvimento do programa espacial norte americano – não podiam usar o mesmo banheiro que as mulheres brancas. A ideia da interseccionalidade também aparece aqui. Nenhuma das mulheres do filme podia assinar relatórios ou participar de reuniões importantes, mas para as mulheres negras se acrescentavam os problemas relacionados ao fato de viverem em uma sociedade racializada, problemas esses que iam desde o uso do banheiro até a dificuldade para ser promovida ou a possibilidade de buscar uma formação técnica mais especializada.

E finalmente, podemos pensar nas carreiras profissionais. No Brasil, os dados objetivos do currículo Lattes nos permitem verificar que em termos de número de doutoras já somos aproximadamente 50%, o que deveria ser esperado em todos os âmbitos da nossa sociedade: se somos aproximadamente 50% da população, é desejável que estejamos mais ou menos assim representadas em todos os espaços. Entretanto, quando detalhamos os tipos de carreiras esses números mudam, por exemplo, nas áreas das ciências exatas e das engenharias, somos muito menos do que 50%. Se olharmos nas carreiras com maior prestígio social, assim como nos cargos de liderança e mais altos patamares profissionais também estamos em menor número. Destacando que esses números na nossa também racializada sociedade é sempre mais discrepante ao se tratar de mulheres negras. Na vida – como na arte – nossa presença é real, mas invisibilizada, nossas lutas, como mulheres negras, se amalgamam nas questões de gênero e dos processos de racialização. Na construção de uma carreira profissional, há mulheres negras com talento e interesse pelas ciências exatas e engenharias, mas há também um caminho longo de falta de incentivos desde a mais tenra idade que perpassa pelo fato de sermos mulheres e negras. 

Em relação a todas as mulheres, mas em especial para as mulheres negras – personagens principais do filme e população numerosa e importante no nosso país-, podemos transformar a mudança do título em inglês para o português em um grande objetivo de mudança para toda nossa sociedade: deixarmos de ser tratadas como figuras escondidas para sermos reconhecidas por nosso protagonismo e ações como estrelas além do tempo

A autora

Monica Abrantes Galindo. Professora da UNESP em São José do Rio Preto, membra do CDINN – Coletivo de Intelectuais Negras e Negros e do Coletivo Mulheres na Politica, Conselheira do Conselho Afro Municipal. Coordenadora do NUPE – Núcleo Negro de Pesquisa e Extensão da UNESP e do Projeto de Extensão Mulheres no Plural.