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Biblioteca Falada

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Seja lendo um livro ou assistindo um filme, os produtos culturais não apenas fazem parte, mas moldam a rotina do seu público. É inegável a importância dessas produções que, desde as ficções que divertem até os textos de finalidade educativa, estão cada vez mais fáceis de se consumir. Porém, como nada pode ser generalizado, este acesso vem de forma irregular, não chegando a todos.

De acordo com pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 8% da população brasileira acima de dois anos possui algum tipo de deficiência. E quando o assunto é deficiência visual, o número é de 3,4% dos brasileiros, como aponta o último levantamento. De que forma então, os conteúdos mais voltadas à escrita e ao audiovisual conseguem atingir essa parte da sociedade?

Infelizmente, muitas vezes essas obras não chegam. E é visando esse problema social que surgiu, dentro do campus de Bauru da Universidade Estadual Paulista ‘Júlio Mesquita Filho’, o Biblioteca Falada. A ideia, que começou a ser desenvolvida em 2004, foi assumida em 2013 por Suely Maciel. Pós-doutora em Comunicação pela Universidade Autônoma de Barcelona, a professora cuida do laboratório desde então.

Logo da biblioteca falada. Imagem de fundo degrade amarelo e branco, com o nome do projeto na frente, de preto.
Logo do laboratório Biblioteca Falada (Foto: Faac/Unesp)

Segundo definição da Universidade Federal da Fronteira Sul, um projeto de extensão é “uma ação processual e contínua de caráter educativo, social e cultural, científico ou tecnológico, com objetivo específico e prazo determinado”. Neste caso, o objetivo buscado pelas iniciativas extensionistas do laboratório é facilitar o acesso de pessoas com deficiência visual a atividades intelectuais que ajudem em sua inclusão na sociedade e tragam maior igualdade.

O Biblioteca Falada trabalha de mãos dadas com o Lar Escola Santa Luzia para Cegos. Os alunos da instituição são o público alvo dos conteúdos produzidos pelo laboratório, tendo sempre suas demandas como foco.

A professora comenta ainda que participar do laboratório traz um saber especial e diferenciado para os participantes: “Certamente o que há de mais valioso é o conhecimento acerca do cotidiano, das necessidades e da vivência das pessoas com deficiência visual e das pessoas com deficiência de uma maneira geral”. Ela ainda acrescenta que, apesar de a diversidade ser um tópico hoje muito abordado nas universidades, quando o foco é pessoas com deficiência visual muita ênfase ainda precisa ser dada.

Alunos do Lar Escola Santa Luzia para Cegos. 18 pessoas estão olhando para foto, a maioria usando uniformes azul ou amarelo. No fundo há uma parede marrom, com um banner branco, azul e rosa pendurado.
Alunos do Lar Escola Santa Luzia para Cegos (Foto: Social Bauru)

Além do Lar Escola, pedidos do Centro de Prevenção à Cegueira e de outras organizações são ouvidos. O importante, para o grupo de mais de 40 participantes do laboratório, é servir à quem necessita.

Entre as produções do Biblioteca, a maior parte é a transformação de textos, tanto literários quanto jornalísticos, em áudio. Como explica o site oficial da UNESP, os materiais passam por um processo de “adaptação de roteiro, locução e sonoplastia/sonorização”. Além da parte escrita, muitos conteúdos audiovisuais, como imagens, clipes e filmes, também contam com o recursos da audiodescrição.

Todos os conteúdos produzidos são hoje uma grande referência para trabalhos e estudos na área. “Ele (trabalho do Biblioteca Falada) tem sido a base para o desenvolvimento de diversas pesquisas de iniciação científica, livros de pós-graduação, trabalhos de conclusão de curso, proposição de produtos, serviços e metodologias”, afirmou Suely.

E para quem está dentro do laboratório, a diferença também é sentida. A professora relata que diversos alunos participantes do Biblioteca Falada seguem trabalhando e se colocando no mercado dentro da área da acessibilidade. “Quando eles deixam a universidade, eles levam isso consigo”, finaliza.

A mais recente iniciativa do laboratório está sendo a construção do aplicativo Siga. Um guia de geolocalização em Bauru, o aplicativo contém não apenas informações descritivas, mas curiosidades históricas e culturais da cidade paulista. O intuito é transformar o passeio dos usuários em algo mais completo, permitindo uma maior consciência de espaço ao passearem pelas ruas.

Infelizmente, a pandemia atrasou um pouco os planos de desenvolvimento do aplicativo. “Parte do desenvolvimento do Siga depende do contato, de algumas dinâmicas e conhecimento com os alunos do Santa Luzia”, explicou. Além disso, o estudo acerca do deslocamento na cidade é algo que também está em pausa, por motivos de saúde pública.

Imagem de um mapa com diversos locais sendo apontados por setas coloridas. Na parte superior está o texto "Siga: Mapa Sonoro" de branco, por cima de uma faixa roxa.
Aplicativo Siga, desenvolvido pelo Biblioteca Falada (Foto: Jornal Dois)

Contribuindo para a elaboração de produtos e conteúdos destinados a essa população marginalizada pela sociedade, o Biblioteca Falada segue forte em sua meta mesmo depois de tanto tempo. A respeito do futuro do Laboratório e da proposição de novos projetos de extensão e pesquisa, Suely comenta: “Então a ideia pros próximos anos é ampliar os pontos de Bauru e ampliar essa oferta de informação para outros locais, tanto para o estado de São Paulo quanto para o resto do país, e para isso parceiras estão sendo estabelecidas.”

Para saber mais sobre o laboratório e seguir acompanhando seus trabalhos, é possível  seguir suas contas no instagram e twitter, além da página no Facebook.

Créditos

Texto elaborado por Mariana Fabiano, colaboradora do Educando para a Diversidade.

Capa por Gabriela Simões, colaboradora do Educando para a Diversidade.