Ser feminista como a minha mãe

Por Juliana Costa (UNESP, NUPE)

Podemos nos identificar com saias e com calças, com a cor rosa ou com a azul, com delicadeza e com a força, com a maternidade e com a ausência de filhos, com carreiras brilhantes e promissoras ou com as atividades domésticas. Podemos sonhar em cuidar dos outros ou em sermos sozinhas. Nosso corpo pode ou não menstruar. A existência de elementos como úteros e seios também não define nossa existência. E no final, se alguém me perguntar o que é ser mulher, possivelmente eu usasse exemplos, as mulheres nas quais eu me inspiro, ao invés de termos. Não há nada como os exemplos. São eles que nos levam a construir o que somos; e o meu principal exemplo é a minha mãe. Pode soar demodê, mas uma mulher chamada Edna Lázaro é minha principal inspiração do que posso ser. Sempre muito firme em suas falas e posicionamentos, era ela que lavava minha roupa para que eu pudesse ter mais tempo para estudar. Era de sua voz que saia um delicado: “Vai filha, que eu estou na retaguarda”. Tudo que sou e sonho devo a ela, ou porque ela me apresentou a oportunidade ou porque ela possibilitou. Mas para não cairmos em um tom piegas, gostaria de contar que foi com a minha mãe que eu conheci o conceito de empoderamento. Ainda quando eu desconhecia o termo feminismo, minha mãe já demonstrava em ações o conceito em sua essência. E para aqueles que não conhecem o termo eu convido a desmistificá-lo agora nas linhas que seguem, partindo da premissa que a lição mais importante compartilhada pela minha mãe comigo foi como ser feminista. 

O feminismo é antes de tudo um movimento político-social que busca a igualdade entre os gêneros. Não se trata de uma “corrida” para descobrir quem pode mais, no entanto, é o grito de um grupo que nunca pode nada socialmente – as mulheres. No dia 24 de fevereiro, comemoramos no Brasil a conquista do direito ao voto feminino que ocorreu apenas no ano de 1932. O dia marca um importante ganho político, mas também denuncia como durante anos as mulheres não eram consideradas cidadãs, já que o direito ao voto é um dos elementos basilares para a construção da cidadania em sociedades democráticas. 

Dentro do feminismo, temos ondas e vertentes, o que retoma novamente a não unificação da existência feminina, e isso não é negativo, trata-se apenas de marcador do nosso intenso plural. Enquanto as primeiras ondas referenciam momentos históricos, as segundas relacionam-se com pontos de vista ou construções ideológicas (radical, liberal, marxista, negro). No feminismo, que eu chamo de “prático”, da minha mãe existia uma frase diária: “filha, trabalhe para que você tenha a oportunidade de ir embora quando preciso for”. Essa frase foi banhada pelos exemplos das mulheres que ao nosso redor sofriam violência doméstica e não conseguiam ir embora. No feminismo “prático” sempre existiu uma cumplicidade alinhada obviamente com o afeto, e apesar de não ter entrado na universidade, minha mãe sempre valorizou e soube da importância de eu me construir dentro desse espaço. Ela vibrou com a minha aprovação no vestibular de uma universidade pública não apenas com o seu lado materno, mas também com seu lado feminino. 

“Ter um filho com mestrado é bom, mas quando esse filho é uma mulher preta é melhor.   

Antes de ler nos livros o conceito, a minha mãe já me fazia viver o feminismo. Como acadêmica oriento-me e respeito os livros, mas meu sonho é construir o conceito e a ação  feminista como a minha mãe, na prática do dia a dia, na essência de uma mulher que educa outra mulher.

A autora

Palestrante e ativista. Atualmente é Analista em Diversidade e Inclusão e Técnica Judiciária. Mestre em Ensino pela UNESP. Especialista em Gestão Pública pela UFSCAR. Graduada em Pedagogia pela USP. Membra do Núcleo Negro para Pesquisa e Extensão da UNESP. Foi Vice-Presidente do Conselho Afro de São José do Rio Preto 2019/2020. Foi Agente de Desenvolvimento Infantil por 5 anos na UNESP.